quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A flor se faz semente

Fava de Bolota: a árvore ícone do estado do Tocantins inspira design com identidade.

A inspiração agora é semente. A flor da Fava de Bolota – árvore considerada símbolo do Tocantins – obedece ao ciclo natural e cede espaço às vagens. Antes de sair de cena seduziu, atraiu meu olhar, pautou a criação. Emprestou forma, textura e cartela de cor. Impactou com a beleza de uma primavera antecipada e em boa hora descortinou o espetáculo de pura emoção. Essência colhida também no nome e transformada na coleção de objetos voltados ao Projeto Mulheres do Tocantins. Na sensibilidade das mãos femininas torna a desabrochar em detalhes presentes na cerâmica, cestaria e têxteis com o perfume da identidade local, empreendedorismo e sustentabilidade.

Na culminância dessa consultoria assentada na fusão do design com o artesanato respiro celebração. Através do convite do Sebrae Tocantins e Projeto de Estruturação Turística de Taquaruçu (localidade que abriga a comunidade artesã) o aprendizado e experiências ao lado de mulheres tenazes e sonhadoras fortalecem meus ideais de profissão. Refresca reflexões de quanto o design está imbuído do poder de transformação social, do resgate da autoestima, da preservação do patrimônio tangível e intangível. É sempre surpreendente adentar um território, pedir licença aos seus habitantes e fazer uma imersão na identidade, na cultura impregnada pelos cantos, na poética da paisagem, na regionalidade dos costumes, no vocabulário particular, nos sotaques, nas conversas soltas e atos mais simples do cotidiano.

O resultado do leque de produtos da Coleção Fava de Bolota traz na estética um afago aos laços de pertencimento. É inspiração frondosa, de raiz profunda com os sentimentos da terra e ofícios herdados dos antepassados. Nas formas, cores e texturas os vasos, cestos, sousplats e brinquedos referendam o lugar de origem. Esculpem memórias, tecem narrativas, entrelaçam histórias de vida e unem poesia no ponto a ponto da delicadeza. O design expõe o traço apanhado da natureza e o calor de mãos ávidas pela metamorfose da matéria-prima. Mãos sutis que com urucum tingiram a fibra do buriti e a dominaram habilmente na trama secular da cestaria e na técnica do crochê. Mãos que moldaram a argila na riqueza das minúcias que imitam a realidade. Mãos que com linha e agulha fizeram da costura junção de vocação, ofício e tradição resguardando o molde da originalidade. Mãos que deixaram impressas as digitais do afeto. Em Taquaruçu uma primavera feminina demarca novas estações. Floresce um novo tempo. 

[ English Text ]


The flower becomes seed

Inspiration now is a seed. The flower of Fava de Bolota – Symbolic tree from Tocantins – obeys to natural circle, and makes room to green beans. Before coming out of the scene, seduced my attention, guiding to creation. I took the shape, texture and color palette. It impacted with the beauty of an early spring and in good time unveiled the spectacle of pure emotion. Essence also collected in the name and transformed into the collection of objects aimed at the Projeto Mulheres do Tocantins (Tocantins Women Project). In the sensibility of the feminine hands it becomes to blossom in details present in ceramics, basketry and textiles with the scent of local identity, entrepreneurship and sustainability.

At the culmination of this consultancy based on the fusion of design with the craft, I breathe celebration. At the culmination of this consultancy based on the fusion of design with the craft breathe celebration. Through the invitation of the Sebrae Tocantins and Taquaraçu Tourist Structuring Project (locality that houses the artisan community), learning and experiences together with tenacious and dreamy women strengthen my profession's ideals. Refresh reflections of how much design is made with the power of social transformation, the rescue of self-esteem, the preservation of tangible and intangible heritage. It is always surprising to add a territory, to ask permission of its inhabitants and to immerse themselves in identity, in culture impregnated by songs, in the poetics of the landscape, in the regionality of customs, in private vocabulary, in accents, in loose conversations and simpler acts of daily life.

The result of the range of products of the Collection Fava de Bolota brings in aesthetics a caress to the bonds of belonging. The result of the range of products of the Collection Fava de Bolota brings in aesthetics a caress to the bonds of belonging. It is leafy, deep root inspiration with the earth's feelings and crafts inherited from the ancestors. In shapes, colors and textures, vases, baskets, sousplats and toys, referring to the place of origin. They carve out memories, weave narratives, intertwine life stories and unite poetry in the point of delicacy. The design exposes the trapped traces of nature and the warmth of strong hands through the metamorphosis of the raw material. Subtle hands that with urucum painted the buriti fiber and mastered it skillfully in the secular weaving of basketwork and crochet technique. Hands that shaped the clay in the richness of the meticulously imitating reality. Hands with thread and needle made the seam joint of vocation, craft and tradition guarding the mold of originality. Hands that imprinted the fingerprints of affection. In Taquaraçu a feminine spring demarcates new seasons. Flowers a new time.








quinta-feira, 18 de maio de 2017

Território Sagrado

Rio Negro: símbolo de vitalidade do Amazonas e abrigo de mitos ancestrais.   
Estética, função, narrativas ancestrais atadas à trama, calor do feito à mão... e aura. Os vasos, cestos e luminárias que resultam da fusão do design com o artesanato - frutos do Projeto Brasil Original Amazonas – levam na essência as crenças e a espiritualidade dos artesãos. Carregam em si a autorização dos espíritos da floresta na colheita da fibra vegetal utilizada para dar forma às criações também inspiradas no habitat sagrado. Em cada objeto reside a ancestralidade e os vínculos místicos da “Gente Peixe”. Antepassados que segundo relatos orais das etnias de fala tukano e da tribo Tariana, deixaram o Lago de Leite – ventre materno de todos os povos - e na “cobra-canoa” seguiram o curso dos rios Amazonas e Negro até ancorar na região da nova humanidade.

As cidades de São Gabriel da Cachoeira e Barcelos – municípios amazonenses que abrigam comunidades indígenas e ribeirinhas do Projeto Brasil Original - estão nesse eixo sacro. Nada mais pisar o chão para sentir a energia que deles emana e a força proveniente da natureza. Céu, terra e água detêm uma espécie de poder supremo e nutrem a vida ao redor. Demarcam ciclos precisos para um universo alinhado a um tempo e razão de existir.  As conexões com o sagrado estão por toda parte. Dão sentido às normas, comportamentos e ritos dos grupos artesãos enraizados em territórios permeados de mistérios. Lugares de fertilidade onde a semente do nosso trabalho coletivo brota no âmago desse mundo particular.

Da fibra da piaçava, na inspiração que exalta o culto à natureza e na palma das mãos dos artesãos de Barcelos nasce a Coleção Buriti. Imponente palmeira da Amazônia, o buritizeiro enaltece as lendas e as múltiplas benesses em seu codinome de “Árvore da Vida”. Os indígenas Tapuia – que também margeiam a região do Alto Rio Negro -  creditam sua origem a um presente de Tupã, entidade sagrada simbolizada pelo trovão. A narrativa tribal resistente ao tempo explica que no alto da copa as folhas centrais de matiz verde esmeralda compõem uma coroa que adorna e protege a floresta. Reclama reverência e respeito pelo porte majestoso e a generosidade de seus frutos. Cachos que pendem do tronco robusto e alimentam a criação rica em detalhes na tessitura minuciosa que atravessa gerações. Como não ser sagrada?

Na imersão desse fazer artesanal, no convívio com pessoas únicas, na troca de experiências e na sutileza das infinitas histórias contadas pelos artesãos, alargo minha percepção e entendimento a despeito da espiritualidade e convicções. Os simbolismos entrelaçados aos pequenos gestos somam significados grandiosos. Amplio o olhar para os ritos que envolvem o feito à mão e aprendo a respeitá-los. A Mãe Terra é eixo, sentido, direção. É nela e para ela que as coisas orbitam na busca incessante do equilíbrio. O solo, o ar, os rios e as florestas guardam as divindades que guiam a jornada cotidiana. E tudo o que nasce, cresce e floresce nesse mundo das águas é dádiva e consentimento. Presente de outra dimensão.

[ English Text ]

Sacred Territory

Aesthetics, function, ancestral narratives tied to the plot, heat of the handmade ... and aura. The vases, fruit baskets and lamps are result from the fusion of the design with the crafts - fruits of the Original Brazil Amazon Project - take in essence the beliefs and spirituality of the artisans. They carry with themselves the permission of the spirits of the forest to harvest of the vegetal fiber and use them to give shape to the creations also inspired in their sacred habitat. In each object lies the ancestry and the mystical bonds of the “Fish People”. Ancestors who, according to oral reports of the Tukano speaking and Tariana tribes, left the Lake of Milk - the maternal womb of all peoples - and in the " snake canoe " followed the course of the Amazonas and Negro rivers until they anchored in the region of new humanity.

The cities of São Gabriel da Cachoeira and Barcelos - amazon towns that shelters indigenous and riverside communities of Original Brazil Project -  are in this sacred axis. Nothing more than step the ground to feel the energy that emanates from them and the strength from the nature. Heaven, earth and water holds a kind of supreme power and nourish the life around. They define precise cycles for a universe aligned to a time and reason to exist. Connections to the sacred are everywhere. They give meaning to the norms, behaviors and rites of the artisan groups rooted in territories permeated with mysteries. Fertile places, where the seed of our collaborative work springs into the heart of this particular world.

The piaçava fiber, on inspiration that exalts the cult of nature, and from the hand palms of Barcelos artisans, the Buriti Collection is born. Imposing palm tree from Amazon, the buriti tree extols the legends and the multiple blessings in its codename, “Tree of Life". The Tapuia natives - who also border the Upper Negro River region – they credit its origin to a gift from Tupã, a sacred entity symbolized by thunder. The weather-resistant tribal narrative explains that at the top of the canopy, the central leaves of emerald green hue, makes up a crown that adorns and protects the forest. They claim reverence and respect for the majestic size and generosity of its fruits. Curls hanging from the sturdy trunk, feeding the rich creation in details in the meticulous tessitura that goes through generations. How not to be sacred?

In immersion of this artisanal work, in socializing with unique people, in exchange of experiences and in subtlety of the infinite stories told by the artisans, I broaden my perception and understanding in spite of spirituality and convictions. Symbolisms intertwined with small gestures adding grandiose meanings. I broaden the look at the rites that involves the hand made and learn to respect them. Mother Earth is axis, sense, direction. It is in her and for her, that things orbit in the incessant pursuit of balance. The soil, the air, the rivers and the forests keeps the deities that guide the daily journey. And whatever is born, grows and flourishes in this world of waters is gift and consent. A gift from another dimension.
A cidade de Barcelos ancora o Projeto Brasil Original Amazonas, ação do Sebrae-AM.
Sérgio Matos: designer consultor do Projeto Brasil Original.
Nas águas do Rio Negro Alva exibe o vaso da Coleção Buriti.
Artesã de Barcelos, Mara trama o exotismo da Coleção Buriti.
Matéria-prima da Coleção Buriti a piaçava ressignifica seu uso no artesanato local.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

De volta ao começo

Piazza Del Duomo: coração de Milão.
Respiro os ares de Milão. Em mais uma Design Week a sensação é de leveza, conforto e acolhimento. Desta vez é como voltar à casa e abraçar memórias, mergulhar no tempo e na atmosfera mágica que embala todo princípio de sonho. Rebobino a minha trajetória profissional. Faço um percurso inverso onde o passado, astuto, ainda é capaz de desembrulhar todas as novidades e emoções que consolidam o presente. Me detenho numa parada obrigatória: o Salão Satélite. Nele, orbita a minha largada e o traçado de uma história que começou a ganhar contornos há sete anos. Foi meu cartão de visitas. A convite da diretora Marva Griffin tomei lugar no espaço seleto dedicado ao talento dos jovens designers dos cinco continentes. Quem poderia, em início de carreira, desejar mais?

Agora, quando o Salão Satélite celebra 20 anos, uma mostra comemorativa na Fabrica Del Vapore reúne designers por ele projetados e apresentados ao mundo do Design. Cá estou entre os escolhidos, como filho pródigo que à casa torna. É uma honraria ser parte integrante desta edição comemorativa e dividir a mesma exposição ao lado de nomes que têm a minha admiração e respeito. Cada detalhe tem sabor de premiação pela insistência de acreditar e de concretizar sonhos. O Banco Ianomâmi volta à cena, como se nunca dela tivesse ficado ausente. Faz sala com o Tapete Marakatu (desenvolvido com exclusividade para a By Kamy) e a Cadeira Pirarucu, de trama artesanal ainda fresca para o lançamento. O fio da cultura que tomei como matéria-prima ata cada peça.

É o mesmo fio de urdidura das peças que estão no Brazil S/A, na simbólica Universitá Degli Studi Di Milano, e na exposição “Brasile Meticcio”. Outro presente que Milão me reserva, com endereço na Galleria Paola Colombari. Com curadoria e expertise de Paola Colomabari em colaboração com Neia Paz, a mostra expõe através do design com minha assinatura o Brasil de dimensão continental e multicultural. Convida à imersão na formação social que reside na mistura de povos e desdobra-se em tons de pele, enlace de línguas, dialetos, saberes ancestrais e costumes. Um Brasil mestiço. De indígenas, europeus e afrodescendentes que estruturam a matriz da nação com características únicas, oriundas da fusão das referências identitárias. O feito à mão é a digital que valoriza os ofícios herdados dos antepassados. Cada produto narra história, resgata memória e celebra laços de pertencimentos. Design com a aura da mestiçagem que carrego. Para os olhos de Milão e do mundo. Sou grato por estar aqui e agora.

[ English Text ]


Back to the beginning

I breathe Milan air. One more Design Week and the feeling is of lightness, confort and belonging. This time is like coming back home to hug memories, dive on time and on the magical atmosphere that packs all principles of dreams. I rewind my professional trajectory. I do an inverse course where the past, astute, is still able to unwrap all the novelties and emotions that consolidate the present. I stop at an obligatory stop: The Satellite Saloon. In it, it orbits my start and the tracing of a story that began to take shape seven years ago. It was my business card. At the invitation of the director Marva Griffin I took the place in the select space dedicated to the talent of the young designers of the five continents. Who could, at the beginning of their career, want more?

Now, when the Satellite Saloon celebrates 20 years, a commemorative exhibition at Fabrica Del Vapore brings together designers and presented them to the world of Design. Here am I among the chosen ones, like the prodigal son that the house makes. It is an honor to be an integral part of this commemorative edition and to share the same exhibition alongside names that have my admiration and respect. Every detail has a taste of awarding for the insistence of believing and realizing dreams. The Yanomami Bench returns to the scene as if it had never been absent. It makes room with the Marakatu Carpet (exclusively developed by By Kamy) and the Pirarucu Chair, made of handmade fabric still fresh for launch. The thread of the culture I took as raw material binds each piece.

It is the same warp thread of the pieces that are in Brazil S / A, in the symbolic Universitá Degli Studi Di Milano, and in the exhibition "Brasile Meticcio". Another gift that Milan reserves for me, with an address at Galleria Paola Colombari. With curatorship and expertise of Paola Colomabari in collaboration with Neia Paz, the exhibition exposes through the design with my signature the Brazil of continental and multicultural dimension. It invites a immersion in the social formation that resides in the mixture of peoples and unfolds in tones of skin, link of languages, dialects, ancestral knowledge and customs. A mestizo Brazil. Of indigenous, European and Afro-descendants that structure the nation's matrix with unique characteristics, originating from the fusion of the identity references. The handmade is the digital that values the trades inherited from the ancestors. Each product narrates history, rescues memory and celebrates ties of belonging. Design with the aura of miscegenation that I carry. For the eyes of Milan and the world. I'm grateful to be here and now.
Sérgio Matos: "Milão é um marco na minha história profissional". (Foto: Thayse Gomes)
Banco Ianomâmi.


Cadeira Chita.
Cadeira Cobra Coral.

Pufe Carambola.
Poltrona Morototó.
Cadeira Bakairi.
Cadeira Pirarucu.




quinta-feira, 16 de março de 2017

Mais além do Design

Em Barcelos, Amazonas, as águas do Rio Negro irrigam o Projeto Brasil Original e são fluxo de vida.
Não é unicamente sobre Design. É sobre entrelaçamentos de vidas. Não é só trabalho. São trocas e experiências de valor imensurável. Não é estar longe de casa milhares de quilômetros; mas, chegar perto do que faz bem ao coração. Não é mudar temporariamente do centro urbano - com toda tecnologia e facilidades disponíveis - para comunidades enraizadas na floresta. É conexão com a natureza. Não é mapear outras identidades. É descobrir elos ancestrais e sentir-se parte. Não é ser apenas colaborador na abertura de rotas de transformação social. É deixar-se transformar nas pequenas coisas.

Dia após dia, há dois anos, a consultoria ao Projeto Brasil Original Amazonas (iniciativa do Sebrae) me faz refletir, acreditar com afinco na escolha profissional, avaliar perspectivas, ponderar sobre o que realmente importa, aprender a abrir mão do que resulta desnecessário. Nessa imersão através do Design prendo a respiração ante inúmeras descobertas, sensações, emoções, laços afetivos com lugares e pessoas que congregam uma grande família. Sou alguém melhor graças à essa vivência que aporta sensibilidade diante de propósitos, sonhos, ideais. Os meus e de todos os envolvidos numa grande sinergia.

O projeto é multifacetado. Na criação, nas relações pessoais, no aprendizado mútuo, na simplicidade do cotidiano. Oxigena novos olhares, traz à tona outros pontos de vista. Sublinha o exercício de fazer mais e melhor celebrando os vínculos com a terra, a cultura, os ofícios, os costumes, as histórias mantidas vivas para que as gerações anteriores não desapareçam. É surpreendente em cada etapa e revela o potencial humano e criativo que repousa nas comunidades artesãs de Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Manaus, Benjamin Constant, Atalaia do Norte, Tefé e Nova Esperança.

Ao fim, não é só a culminância de produtos embalados pela aura identitária. É o resgate da autoestima de artesãos com suas origens e o orgulho de ser partícipe dessa ação que impulsiona a economia criativa e a inclusão social. Não é tão somente navegar nas águas do Rio Negro e do Solimões e aportar para cumprir rotinas que materializam desenhos impressos em papel. É apurar o olhar para o fluxo das águas que movem desejos; é respirar a floresta em toda sua riqueza; é ouvir uma lenda com o sotaque da língua tribal. É aprender a desenhar e tramar a vida, um dia de cada vez.  


[English Text]

Beyond the Design

It is not only about Design. It is about intertwining of lives. It's not just work. It is exchanges of experiences with immeasurable value. It is not being away from home thousands of miles; but to get close to what is good for the heart. It is not a temporarily moving away from the urban center - with all the technology and facilities available - for rooted communities in the forest. It is connection with nature. It is not mapping other identities. It is discovering the ancestors and feeling part. It is not just being a collaborator in opening social transformation routes. It's letting yourself turn into little things.

Days after days, two years ago, the consultancy of Amazon Original Brazil Project (a Sebrae initiative) made me think, believe with certain of professional choosing, evaluate perspectives, ponder what really matters, learn to give up what is unnecessary. In this immersion through Design I hold my breath before countless discoveries, sensations, emotions, affective bonds with places and people that makes a great family. I am someone better thanks to this experience that brings sensitivity to purposes, dreams, ideals. Mine and everyone involved in a great synergy.

The project is multi faced. On creation, on personal relations, on mutual learning, on simplicity of everyday life. Oxygenates new looks, it brings up other points of views. It emphasizes the exercise of doing more and better, celebrating the ties with the land, the culture, the crafts, the customs, the histories kept alive so that the previous generations do not disappear. It is surprising at every stage and reveals the human and creative potential that rests in the artisan communities of Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Manaus, Benjamin Constant, Tefé, Atalaia and Nova Esperança.

At the end, is not only the concept of products packaged by the identity aura. It is the rescue of the self-esteem of artisans with their origins and the pride of being part of this action that drives the creative economy and social inclusion. It is not only to navigate the waters of Rio Negro and Solimões and to contribute to fulfill routines that materialize drawings printed on paper. It is clearing the look at the flow of the waters that moves desires; Is to breathe the forest wealth; Is to listen to a legend with the tribal accent. It is learning to draw and plot life, one day at a time.
A piaçava é matéria-prima e o babaçu inspiração na atual etapa do Brasil Original em Barcelos.
A artesã Alva trama a nova coleção para o projeto do Sebrae Amazonas.
"Eu, o Rio Negro e Barcelos"
No Amazonas a natureza inspira uma pausa, um respiro, um suspiro. 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Quando o design aproxima

Barcelos, no Amazonas: o Rio Negro e a Floresta Amazônica emolduram a riqueza natural da cidade.
A distância geográfica soma 3.100 quilômetros. Uma linha reta que liga Campina Grande – cidade paraibana onde finquei morada – ao município de Barcelos (Amazonas). Sobre o mapa do Brasil o traçado quase conecta os extremos Leste e Oeste. Essa mesma distância cede à afetividade e encurta medidas, tornando-as mais estreitas e menos pertinentes. Abarrota os caminhos do coração com memórias, sorrisos largos, abraços apertados e sonhos estampados nos olhos dos artesãos indígenas e ribeirinhos que integram o Projeto Brasil Original – Artesanato Amazonas. Através da consultoria de design viabilizada pelo Sebrae, eles tornaram-se amigos, irmãos, parceiros na jornada da criação e no compartilhamento dos ofícios e saberes herdados dos antepassados.       

Barcelos é minha próxima parada na retomada da consultoria. Um porto onde me sinto seguro porque lá estou em casa, entre os meus. Já incorporei com clareza cada pedaço das margens do Rio Negro que me levam ao encontro das comunidades assistidas pelo projeto. Gravei com precisão a paisagem e detalhes que nem em sonhos podiam ser mais perfeitos. O nascer e pôr do sol; o canto dos pássaros; o barulho das árvores ao vento; os cheiros; a textura da floresta e o espelho d’água do rio e dos igarapés que reflete minha alegria em fazer do design uma ferramenta de transformação social.

Na cidade com status de primeira capital do Amazonas a piaçava é matéria-prima para o artesanato. Sua resistência confunde-se com a história e organização social de alguns povos da floresta. Na primeira imersão do Brasil Original a cor marrom, a flexibilidade e versatilidade da fibra - sob a habilidade técnica dos artesãos - incorporaram formas colhidas na natureza para objetos que seduziram o consumidor nas feiras de design e loja com o selo do projeto. A fruteira Vitória Régia é um dos ícones e inspira novos produtos com a digital da originalidade.

Nos próximos dias, a identidade que embala o design dos novos produtos elaborados com a piaçava sairá do papel pelo calor das mãos de Antônio e Dinalva, da etnia Tariana, Ângela do povo Baré e Sônia da tribo Baniwa. Mestres do artesanato amazonense que junto a outros nomes tenho o orgulho do convívio e das experiências partilhadas. Pessoas que carrego no peito com a reverência de família. Por elas nutro um sentimento de respeito, gratidão e proximidade. Nenhuma distância geográfica afasta isso.

[English Text]


When design approaches

The geographical distance is 3,100 kilometers. A straight line that connects Campina Grande - city of Paraiba where I settled my address - to the city of Barcelos (Amazonas). On the map of Brazil, the route almost connects the East and West extreme ends.This same distance gives affectivity and shortens measures, making them narrower and less pertinent. It fills the paths of heart with Indigenous and riverine craftsmen who make up the Original Brazil Project – Amazonas Craft. Through the design consultancy, made possible by Sebrae, they became friends, brothers, partners in the journey of creation and in the sharing of the trades and knowledge inherited from the ancestors.

Barcelos is my next stop in the resumption of consulting. A port where I feel safe because there, I feel I’m at home. I had incorporated, with clarity, each piece of the banks of the Negro River that lead me to meet the communities assisted by the project. I recorded the landscape and details that even dreams could not make them much perfect. The sunrise and sunset; the birds singing; the sound made by wind on the trees; the smells; the texture of the forest and the mirror of the river that reflect my joy in making design a tool of social transformation.

In the city first capital of Amazonas, piaçava is a raw material for handicrafts. Their resistance looks like the history and social organization of some forest peoples. In the first immersion of Brasil Original the color brown, the flexibility and versatility of the fiber - under the technical skill of the artisans - incorporates forms harvested from the nature for objects that seduced the consumer in the design fairs and stores with the stamp of the project. The Vitória Régia fruit tree is one of the icons and inspires new products with digital originality.

In the next few days, an identity that packs design of new products elaborated with piaçava, will go out of the paper by the hand warmth of Antônio and Dinalva, of Tariana ethnicity, Ângela from Baré people a Sônia of Baniwa Tribe. Masters of amazon handcraft, that with some other peoples, I have pride of the living and the shared experiences. People I carry on my heart with family reverence. For them I have a feeling of respect, gratitude and closeness. No geographic distance removes this.
A floresta e a cultura dos povos que nela habitam assinalam a identidade do Projeto Brasil Original.
Antônio, da etnia Tariana, é um dos mestres artesãos que trama a piaçava.
Fruteira Vitória Régia: piaçava como matéria-prima e trama de cultura ancestral.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O futuro feito à mão

Dinalva, artesã de Barcelos, Amazonas: habilidade com a trama da piaçava.
O movimento inverso respira cultura. Se interpõe à produção industrial em larga escala, ao magnetismo do tecnológico. O novo tempo cabe na palma da mão. É o artesanal marcando uma nova escala em objetos únicos, com a etiqueta de exclusividade. O feito à mão exibe a originalidade como marca. Conecta o passado e projeta um futuro com abrigo na ancestralidade. Reaviva saberes e ofícios entrelaçados à formação da história social, às memórias afetivas, ao sentimento de acolhida e pertencimento. Configura a identidade territorial em tempos de uma globalização que apaga fronteiras. 

O futuro tem calor humano e se desenha agora, no presente. Enxergo os vestígios e os persigo certo de que trará bons frutos, que agrupará pessoas, que transformará realidades. Vejo os sinais ao longo dos seis anos da abertura do estúdio. Com os pés na estrada do Design gravei lugares na memória, conheci personagens ímpares. Vivenciei ofícios ancestrais nas comunidades artesãs, vi tramas exuberantes, tessituras perfeitas, entalhes vigorosos em objetos que pertencem à vida cotidiana. Senti o sabor de muitas feiras livres, ouvi burburinho com mistura de sotaques, testemunhei tradições com aura sagrada pelos ritos que as embalam. Pisei universos particulares.

Aos meus olhos, o mapa destas experiências exibe a retomada fortalecida do trabalho artesanal. Abraço as consultorias e projetos nas comunidades artesãs como semeadura da economia criativa, do empreendedorismo, do empoderamento social e da valorização identitária. A extensão do país miscigenado é terra farta para inúmeros brasis que resgatam suas origens e fazem dos ofícios e saberes ancestrais ferramentas transformadoras. No novo tempo que se avizinha o luxo traduz o que é único por carregar uma história de vida, um sentimento, uma herança familiar, uma ideia original. Nesse futuro feito à mão projeto sonhos. É onde quero habitar para fortalecer na fusão do design com o artesanato produtos com alma. Com digitais que despertam emoção.

[ English Text ]

The Future made by hand

The inverse movement breathes culture. In between the large scale industrial production, and magnetic technology. The new time fits on the palm of hand. It is the handmade marking a new scale of unique objects, with a labor of exclusiveness. The handmade shows the originality as brand. Connects the past and projects a future of shelter on the ancestry. Revive knowledges and crafts tangled to formation of social history, to affective memories, to the feeling of welcome end belonging. Configures the territorial identity in times of a globalization that erases borders.

The future has human heat and it draws right now, on the present. I see the I see the traces and I am certain that it will bring good fruits, that will bring people together, that will transform realities. I see the signs of long six years of opening the studio. With the feet on the roads of Design, I recorded places on memory, met great people. Lived ancestral crafts on artisan communities, saw lush wefts, perfect tesserae, vigorous carvings on objects that pertain to everyday life. I tasted many free fairs, I heard rumble with a mixture of accents, I witnessed traditions with aura of sacredness by the rites that cradled them. I stepped particular universes.

To my eyes, the map of these experiences shows the strengthened resumption of craft work. I hug de consultancy and projects at artisan community as seeds of creative economy, of entrepreneurship, of social empowerment and identity valorization. The extension of the mixed country is rich land of countless Brazils who rescue their origins and make the ancestral trades and knowledge the transforming tools. In the new time that neighbors the lust, translate that it is unique for carrying a life story, a feeling, a family heritage, an original idea. On this future made by hand, I project dreams. It is where I want to inhabit, on the fusion of design with the hand craft, products with soul. With digital that creates emotion.
Dona Rosa, artesã Tikuna de Porto Cordeirinho, Amazonas: respeito ao sagrado da floresta. 
No Amazonas a cestaria de José Garcia carrega heranças de seus ancestrais.
Em Manaus, Ema é uma das líderes da Amarn, associação que preserva as tradições indígenas.
Sérgio Matos: "O feito à mão projeta um futuro com abrigo na ancestralidade".
Poltrona Acaú: design com digitais das marisqueiras da Praia de Acaú, no litoral paraibano.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Cadeira Buriti: da árvore da vida brota design


O vaivém hipnótico das linhas seduz o olhar. Traça o porte majestoso da Cadeira Buriti, com inspiração enraizada na flora brasileira e na cultura dos povos indígenas e ribeirinhos. O desenho celebra o buritizeiro, imponente palmeira da Amazônia que batiza a peça de mobiliário e enaltece os mitos, os laços de pertencimento, as múltiplas dádivas da chamada “Árvore da Vida”. 

A estética brota na lenda dos índios Tapuia que credita sua origem a um presente de Tupã, entidade sagrada simbolizada pelo trovão. O conto tribal propagado entre gerações narra o desabrochar das folhas verde esmeralda, onde as de localização central formam uma coroa para adornar e proteger a floresta. Nos leitos dos rios e igarapés a palmeira alcança mais de trinta metros de altitude e pode ser vista à distância, reclamando reverência e respeito.

A carga simbólica – somada às nervuras na casca do fruto escarlate – configura o traçado da estrutura elaborada com riqueza de detalhes. O movimento curvilíneo do aço exibe perenidade. O metal envolto pela amarração de corda naval estabelece harmonia na forma ora enérgica, ora sutil. Encosto e assento coroam a poesia do trabalho artesanal; o fio da ancestralidade presente na crença que conecta céu, terra, deus e homens. Sob a criação revestida de contemporaneidade reside o código frondoso da copa do buritizeiro que abriga função, estética e memória. Na simplicidade, o design de alma brasileira cultua nobreza e repousa à sombra de uma palmeira. 


[ English Text ]

Buriti Chair

The hypnotic lines shuttle seduces the look. It traces the majestic size of the Buriti Chair, with inspiration rooted in the Brazilian flora and the culture of the indigenous and riverside peoples. The design celebrates the buriti tree, imposing palm tree of the Amazon that baptizes the piece of furniture and exalts the myths, the bonds of belonging, the multiple gifts of the call “Tree of Life”. 

The aesthetics springs from the legend of the Tapuia Indians who its origin comes of a gift from Tupã, a sacred entity symbolized by thunder. The tribal tales between generations narrates the blossoming of the emerald green leaves, where the central located leaves form a crown to adorn and protect the forest. In the beds of rivers and streams the palm tree reaches more than thirty meters of altitude and can be seen from a distance, demanding respect and reverence.

The symbolic burden – added by the scratches of the fruit red shell – configures the trace of an elaborated structure with a richness of details. The curve movement of the steel shows perenniality. The metal wrapped by the mooring of naval rope establishes harmony in the sometimes energetic, other times subtle form. The backrest and the seat crowns the poetry of artisanal work; The thread of ancestry present in the belief that connects heaven, earth, god and men. Underneath the contemporaneous creation, lies the leafy forms of buriti tree that houses function, aesthetics and memory. In simplicity, the design of Brazilian soul worships culture and rests under the shadow of a palm tree.
Fruto do buritizeiro (Foto: reprodução)
Palmeira Buriti: imponência na Floresta Amazônica e Cerrado brasileiro (Foto: reprodução)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Vida longa à regionalidade, às tradições

Em Campina Grande (PB), o Parque do Povo é cenário do Maior São João do Mundo.

A regionalidade está no ar. Porque Junho tem um quê de magia que faz o Nordeste transbordar em referências da cultura ancestral. É o mês da natividade desta porção de terra brasileira que adotei como morada e onde as simbologias afloram para recordar o fio da meada com as origens. Tempo de colheita da terra e da alma. De celebração e reencontros ungidos pelo fogo, fé, ritos, mesa farta. Cores, músicas, danças, risos extravagantes e orações silenciosas estão no mesmo caldeirão das tradições. A fervura é a da miscigenação, da pluralidade dos povos, dos tons de pele, dos sotaques, dos costumes, do religioso e profano.

Difícil de explicar como as festividades aguçam os cinco sentidos. Invadem corpo e coração no misto dos cheiros, sabores, sensações e estampidos.  A tríade dos santos católicos  - Antônio, João e Pedro - toma assento no mesmo espaço dos cultos pagãos em agradecimento à colheita, à fertilidade da mãe Terra, ao alimento. Tudo é sagrado. Das bandeirolas e balões coloridos que se agitam ao vento às fogueiras que conectam terra e céu através da fumaça que incendeia o ambiente. Do banquete onde o milho é protagonista ao xote, forró, xaxado e baião que exorcizam tristeza no compasso da zabumba e gemido da sanfona. Os altares das igrejas e os palcos em praça pública dividem reverências.  

Testemunhar essa explosão cultural na cidade de Campina Grande, na Paraíba, é um privilégio. Converto em aprendizado inesgotável porque a cada ano tudo ressurge em novas perpectivas, como um caleidoscópio. Faço uma imersão nos detalhes, nos códigos, nas entrelinhas e tramas que revestem festa tão grandiosa. Respiro a identidade territorial onde habita e pulsa inspiração para o design. A Poltrona Balão, a Cadeira Chita, a Poltrona Balaio e o Balanço Bodocongó são crias dessa cultura fumegante. Oxalá ela não pare de arder e meu olhar não perca o brilho, a centelha da criação.

[ English Text ]

Long Live to regionality, to traditions

Regionality is in the air. Because June has a trace of magic that made Northeast overflow in references of ancestral culture. It is the month of nativeness of this portion of Brazilian land I adopted with origins. Time of harvest of the land and soul. Of celebration and meeting by the fire pit, faith, rites, dinner table full. Colors, music, dances, extravagant loughs and silent prayers are in the same cauldron of traditions. It boils miscegenation, plurality oh people, of skin tones, of accents, of religious and profane.

It is hard to explain how festivities sharpen the five senses. Invades body and heart, in the mix of smells, flavors, feelings and noises. The triad of Catholic saints – Anthony, John and Peter – takes seat at the same spot of pagan rituals to thank the harvest, the fertility of Mother Earth, for the food. Everything is sacred. Of flags and colorful balloons that are shaken by the wind, the fire pits that connects earth and heaven through the smoke burning the ambient. Of the banquet, which corn is the protagonist to ‘Xote’, ‘forró’, ‘xaxado’ and ‘baião’ that exorcises sadness in pace of zabumba e moaning of the accordion. Those church altars and open square stages divide obeisances.

Testify to this cultural explosion in  Campina Grande city, at Paraíba, is a privilege. I convert in unstoppable learning because in each year everything rises in a new perspective, like a kaleidoscope. I emerge in details, in codes, between the lines and plots that cover such a great party. I breath territorial identity where inhabits and pulses inspiration to design. The Balão Armchair, the Chita Chair, the Balaio Armchair and Bodocongó Swing are creations of this smoking culture. I hope is does not stop burning and my look doesn’t lose shine, the spark of creation.